quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Ana - Ana Cañas e Alexandre Fontanetti


A Ana disse ontem
A Ana ficou triste
A Ana também leu
A Ana não existe
É a Ana insiste
A Ana não consegue
A Ana inventou
Ela também merece
A Ana é azeda
Mas é doce quando é doce
A Ana é azeda
Mas muito doce quando é doce
A Ana nada sabe
A Ana sempre canta
A Ana me enrola
A Ana me encanta
A Ana se pintou
A Ana não limpou
A Ana que escreveu
A Ana se esqueceu
Foi a Ana que fez
Foi a Ana que foi
Foi a Ana em fá
Foi a Ana, foi
A Ana ama
A Ana odeia
A Ana sonha
A Ana canta

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Até A Rapa - Martha Medeiros

Olhe para um lugar onde tenha muita gente: uma praia num domingo de 40 graus, uma estação de metrô, a rua principal do centro da cidade. Pois metade deste povaréu sofre de dor-de-cotovelo.
Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anônimos têm um amor mal resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação.
Por que isso acontece? Eu tenho uma teoria, ainda que eu seja tudo, menos teórica no assunto. Acho que as pessoas não gastam seu amor. Isso mesmo. Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim. Você sabe, o amor acaba.
É mentira dizer que não. Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais. Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: amizade, parceria, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor foi devorado até a rapa.
Dor-de-cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote. O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia, sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade. É preciso passar por todas as etapas: atração-paixão-amor-convivência-amizade-tédio-fim.
Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos, mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estar aberto para novos amores.
Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez.
Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim. Enfrente os bons e os maus momentos, passe por tudo que tiver que passar, não se economize. Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade. Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo.
Isso é que libera a gente para ser feliz de novo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Meu Selo Em Teu Corpo - olhosdepoeta

Eu fecho os meus olhos e sinto ainda
o perfume amadeirado da sua loção pós barba
Consigo recordar cada toque,
de meus dedos a percorrê-lo suavemente
Em cada pedacinho do teu corpo
fui deslizando como um reconhecimento
Perigoso e adorável ao mesmo tempo.
E cada beijo que lhe dei feito um selo meu
Marcando teu corpo e te levando ao delírio.
Delírio este que se juntava ao meu prazer
em vê-lo todo entregue a mim
Só meu, ali ofertado e amado e degustado...
Foram dias e noites de gloria,
entrega mutua e perfeição
Quando nossos corpos se doavam
numa completa união
Muitos outros dias haverão de existir
e ainda recordarei teu gosto
E sei que teu corpo ainda exibe meu selo
De tantos e tantos beijos que lhe dei.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Outra - Magda Almodóvar


Ela sempre se interpõe entre nós!
Cada vez que você se entrega um pouco mais,
Fica sem me procurar por longo tempo.
Quando a saudade aperta, ouço sua voz,
Mas não saem de sua boca confissões de amor,
Palavras de bem querer.
No gozo conjunto já ouvi que sou sua vida, sua paixão,
Uma única vez porém,
Agora só o som de sua respiração ofegante,
E o tatear meu corpo delicadamente,
Como a me memorizar.
Ela nos atrapalha!
Em nossos encontros somos três:
Você, eu e... ela!
Que faz com que perca o espontâneo,
Transforme tudo em jogo.
Inconfessadas sensações batem em seu peito
E latejam em suas têmporas!
Seu olhar me diz amor,
sua boca declara racionalização.
Ela, sempre ela!
Fantasma a nos perseguir,
Rédea que freia.
E é falta de tempo,
Excesso de trabalho,
Filhos para se ocupar,
Mais e mais a aprender...
Desculpas!
Ela não deixa você me amar!
Ah! Se ela fosse mais jovem!
Ah! Se ela fosse mais inteligente!
Ah! Se ela fosse mais quente!
Ah! Se ela fosse gente!
É difícil com ela lutar!
Não sei mais que armas usar!
Carinho? 
Já dei!
Fantasias sexuais?
A todas me entreguei!
Pegá-lo pelo estômago?
Doces receitas já usei!
Mostrar indiferença?
Até isto já tentei!
Desisto!
Ela é mais forte,
Já o acompanha faz muito tempo!
Separar-se dela não está em seus planos,
E dividir você, não consigo,
E não conseguirei.
Em triângulo não viverei!
Abrace-a,
Chore minha ausência.
Pelo menos um pedaço querido
Em sua vida sempre serei.
E ela, a amargura,
Marca de amores desastrados,
Não sou eu quem matarei.
É preciso que você assuma o risco
De amar e ser amado,
De assumir a paixão,
De esquecer o passado,
De dar ao nosso caso
O doce sabor de só querer,
Sem medo de se perder.
Ela ou eu?

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Chão É A Cama - Carlos Drummond de Andrade


O Chão é a cama para o amor urgente,
O amor não espera ir para a cama.
Sobre o tapete no duro piso,
a gente compõe de corpo a corpo 
a última trama.
E para repousar do amor, 
vamos para a cama!