quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Tenho Tanto Sentimento - Fernando Pessoa


Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Bela Do Dia - Fátima Irene Pinto


Como conter este fogo
que em mim crepita
Como calar a mulher que,
abafada, grita 
Como vazar esta energia,
há tanto armazenada 
Como estancar meu êxtase
e reduzi-lo a nada?! 
Como segurar meus quadris
quando me chega o ritmo 
Como calar minha voz
que nasceu pra cantar 
Como aquietar este corpo
remoçado e quente 
Se este corpo nasceu
vocacionado para amar?!
Não...
decididamente não sou deprimida
Muito pelo contrário...
isto é uma ideia torta 
O que oprime é ter
que fingir-me de morta 
Quando na verdade
eu transbordo vida!!!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Strip -Tease - Martha Medeiros


Chegou no apartamento dele
por volta das seis da tarde

e sentia um nervosismo fora do comum.

Antes de entrar,
pensou mais uma vez no que estava por fazer.
Seria a
sua primeira vez.
Já havia roído as unhas de ambas as mãos.

Não podia mais voltar atrás.

Tocou a campainha e ele,
ansioso do outro lado da porta,
não levou mais
do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, 

ela não quis.
Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou.
Ele perguntou o que poderia fazer por ela.

A resposta: - Sem preliminares.
Quero que você me escute,
simplesmente.
Então ela começou a se despir
como nunca havia feito antes: 
tire as máscaras...
Primeiro tirou a máscara

"Eu tenho feito de conta 

que você não me interessa muito,
mas não é verdade.

Você é a pessoa mais especial que já conheci.

Não por ser bonito ou por pensar como eu
sobre tantas coisas, mas por
algo maior
e mais profundo do que aparência e afinidade.

Ser correspondida
é o que menos me importa no momento:
preciso dizer o
que sinto..."
Seja somente você, em tudo...

Então ela se desfez da arrogância

"Nem sei com que pernas cheguei até sua casa,
achei que não teria
coragem.
Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba
que cada música que
toca, é com você que ouço,
Cada palavra que leio, é com você que reparto,

Cada deslumbramento que tenho, 

é com você que sinto.
Você está entranhado no que sou, 

virou parte da minha história." 
Fale dos seus sentimentos...

Era o pudor sendo desabotoado

"Eu beijo espelhos, abraço, almofadas,

faço carinho em mim mesma, 

tendo você no pensamento,
e mesmo quando as coisas 

que faço são menos importantes,
como ler uma revista ou lavar uma meia,
 

é em sua companhia que estou."
a pessoa amada precisa e gosta de saber...

Retirava o medo

"Eu não sou melhor ou pior do que ninguém,
 

sou apenas alguém
que está aprendendo a lidar com o amor, 

sinto que ele existe,
sinto que é forte e sinto que é aquilo 

que todos procuram."
Encontrei!

E se for o caso, coragem...

Por fim a última peça caía, deixando-a nua

"Eu gostaria de viver com você,
mas não foi por isso que vim.

A intenção...
é unicamente deixá-lo saber
que é amado
e deixá-lo pensar a respeito,

que o amor não é coisa que se retribua de imediato, 

apenas para ser gentil.
Se um dia...
eu for amada do mesmo modo por você,
  

me avise que eu volto,
e a gente recomeça de onde parou.

Paramos aqui!
"
E saiu do apartamento sentindo-se 

mais mulher do que nunca.

Eu Que Não Sei Quase Nada Do Mar - Ana Carolina


Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura,
me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda,
me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios,
mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim Clara,
noite rara, nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda,
me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios,
mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

69 - Magda Almodóvar

Sessenta e nove...
um número... um preço...
um ano... uma idade...
uma vontade.
Sessenta e nove...
uma forma... um desenho...
um movimento de linhas curvas...
um apelo.
Sessenta e nove...
uma fantasia sexual.
Sessenta e nove...
você... eu... o prazer.
Sessenta e nove vezes
já fizemos 69... nunca igual.
Sessenta e nove horas
de sabor e descobertas.
Sessenta e nove, o nosso...
é delírio... é feito de gotas...
chuva... línguas... narizes...
heiros... sabores... amor.
Sessenta e nove...
é nossa viagem aos sucos
que nascem em nosso interior.
Sessenta e nove...
as vezes começo... às vezes
durante... às vezes fim...
sempre entrega.
Sessenta e nove pudores
que você derrubou...
Me lembro a primeira vez...
Fechada em medos...
receios... conceitos...
preconceitos... em pudor...
Meigamente você tomou meus lábios...
invadiu minha boca...
sugou meus seios...
Lentamente percorreu
o caminho até meu umbigo...
ali se deteve... lambendo...
introduzindo sua língua quente.
Dancei e me ofereci.
Você me desenhava o ventre com a língua...
as mãos brincando em meus mamilos...
me fez instinto faminto.
Mordiscou meus pêlos...
puxou-os suavemente com o dentes.
Suas mãos agora apertavam meu traseiro...
levantavam-me para facilitar seus
beijos em meus grandes lábios.
Gemendo eu dizia delírios... dizia pare...
dizia me penetra, meu amor.
Minha cabeça girava... em mim surgia a vontade de
pesquisar seu membro forte que me tocava as pernas...
ensandecido de desejo de ser lambido...
chupado... saboreado com amor.
Por segundos tive pânico...
era tão nova essa vontade... esse despudor.
Quis gritar minha vontade... não houve necessidade...
você sabe fazer amor.
Girou seu corpo amado... 
ofereceu seu membro adorado...
fêmea... apenas fêmea... só instinto... me tornou.
Deus! Que gosto... poder saber seu gosto... 
engolir seu sabor.
Com cuidado percorri este poderoso instrumento rijo,
de textura macia, fina pele em sua borda... 
sensível... forte...
na justa medida da minha fome de comer amor.
Sua língua me invadia... minha boca o engolia...
sugávamos os sucos do amor.
Sede saciada... desejo crescente... loucura presente...
fizemos chuva de amor.
Sessenta e nove é linha curva
que em círculo aprisiona e liberta nosso amor.